| |
Na casa das sete mulheres
Aqueles foram tempos convulsivos no Rio Grande do Sul. Um
povo ainda em formação lutava por sua terra,
seu gado, suas mulheres e seus filhos. Para o campo migravam
os homens, numa marcha sem volta. Idealistas, sanguinários,
libertários, soldados, estancieiros, peões,
maridos, pais. No campo sangravam. No campo passavam frio
e fome.
|
|
 |
| |
|
Apartavam-se até dos ideais, por
vezes da razão. Escondiam o medo na insanidade. Perdiam
as roupas, os cavalos, as batalhas. Farrapos.
Na casa ficavam as mulheres. Com elas, moças que viam
a meninice passar, esperando seus irmãos, seus pais,
um pretendente que pudesse transpor a porteira só para
cruzá-la novamente rumo à morte.
Aqueles foram tempos de espera.
E a espera trazia a incerteza, a angústia, o medo e
a solidão, que disputava com a insanidade um lugar
no coração do pampa. Mas na casa também
repousavam a vida e a obstinação. A esperança
de que uma ferida não fosse encontrar a morte ao cair
da noite. Na casa as mulheres colocavam as dores para quarar
ao sol.
|
|
 |
| |
|
E rezavam, crentes. Cozinhavam os doces e
teciam as roupas, silentes. E amavam, amavam com gana e com
fé, agarradas a esperanças que só dividiam
com a escuridão do pampa.
Na casa do general farroupilha Bento Gonçalves da Silva,
líder tenaz de um povo insurreto, ficaram Ana Joaquina,
Maria, Manuela, Mariana, Rosário, Perpétua e
Caetana - e por que não dizer Beth Mendes, Nívea
Maria, Camila Morgado, Samara Felippo, Mariana Ximenes, Daniela
Escobar e Eliane Giardini.
Seus registros perderam-se na história. Ninguém
sabe quantas foram as noites que essas mulheres passaram em
claro chorando seus homens, ou quantas foram as noites que
gastaram reunidas na sala, em volta de um fogo tremulante,
à espera de um parto, de uma notícia, de um
encontro sorrateiro de amores proibidos.
|
|
 |
| |
|
Mas não há quem duvide de que
essas noites se passaram, no aguardo de dias mais ensolarados,
menos revoltosos.
Como que por um gracejo da memória, a história
da vida privada daquela estância emerge no livro A
Casa das Sete Mulheres, da gaúcha Letícia
Wierchowzki, é recontada por Maria Adelaide Amaral
e Walther Negrão e se torna realidade pelos olhos de
Jayme Monjardim. Real, tão real quanto as noites que
se arrastaram pelos corredores e quartos e lençóis
daquela casa, na longa espera que começou em 1835 e
expirou em 1845.
Essa história não é apenas uma história
do povo gaúcho.
Não é apenas das mulheres - suas dores e seus
amores - nem apenas dos homens e de seu sangue derramado.
|
|
 |
| |
|
É humana. Nasce do conflito, da discórdia,
mas também dos ideais e da dignidade. Sobretudo, é
uma história de amor, desse sentimento que fala aos
homens de bravura, às mulheres enlevadas, às
mães zelosas e ao coração de qualquer
um que a escute.
Uma história apaixonada que comoveu uma equipe que
se transformou em uma família comandada por um pai
exigente, obstinado, determinado e, ainda assim, doce.
Na distante Cambará do Sul, sobre os Campos de Cima
da Serra, nas escarpas do Rio Grande, o elenco gravou suas
primeiras cenas num sábado de um mês de outubro
abafado. Num vale de margaridinhas, à beira da estrada
que leva ao Parque Nacional dos Aparados, era possível
ouvir a pulsação do coração de
Camila
|
|
 |
| |
|
Morgado, mais Manuela do que qualquer outra
jamais poderia ser, na sua primeira cena na televisão.
Ali era possível beber do amor fantástico, surreal
da doce Rosário, personagem que latejava sob a pele
alva de Mariana Ximenes. Os olhos marejados de tanto amor
pelo impávido Estevão, forjado para Thiago Fragoso.
Ao longe, fora da cena, Amanda Lee galopava livre, os pés
soltos dos estribos, o sorriso largo da índia Luzia
estampado no rosto trigueiro.
O fim do dia trouxe lágrimas aos olhos de muitos -
emoção que se repetiria muitas vezes, em várias
outras cenas conquistadas, e não apenas gravadas. Algo
aconteceu naquele vale das sete mulheres, no sétimo
dia em que Jayme Monjardim pisava o Rio Grande do Sul: a certeza
de que todas as pessoas ali respiravam aquela história
de amor, estavam tomadas por ela, viviam-na. Ali, o que era
história de um povo passou a ser realidade.
|
|
 |
| |
|
Ao entardecer, com o corpo cansado e a alma
extasiada, a família se reunia novamente, no mesmo
clima que temperava o set de gravações. À
porta da pousada Recanto das Gralhas, Jayme e Marcos Schechtman,
ladeados por Mariana e Amanda, tomavam o mate como quem foi
criado pra fora, à beira do fogo de chão. Observavam
o pôr-do-sol com a tranqüilidade de quem sabe que
as coisas estavam começando bem. À noite, a
hora era de celebração. A equipe tomou conta
de uma churrascaria e, ao som de gaitas e violões -
inclusive o de Thiago Fragoso -, festejou o início
dos trabalhos. Mariana, Amanda e Camila eram um show à
parte, dançando como prendas de galpão, faceiras.
Na vizinha São Jose dos Ausentes a família cresceu,
chegaram soldados e chinas, as demais mulheres da casa, seus
irmãos e seus amores. Lá desembarcou Werner
Schünemann, trazendo na
|
|
 |
| |
|
alma o lendário general Bento Gonçalves.
Lá, também, a chuva e a serração
apanhou a equipe de surpresa, causou angústia e apreensão,
os primeiros lamentos. Como toda família, esta aprendeu
a se unir na dor, e assim teve certeza de que, a partir dali,
poderia superar, junta, todas as dificuldades.
E elas estavam por vir.
Mais tarde, em Pelotas, fez-se a casa, cercada de sussurros
entre as moças, promessas de amor jamais cumpridas,
certezas desfeitas pela guerra que se desenrolava.
Lá chegou, impressionante, garboso, exato, Thiago Lacerda,
carregando dois olhos de oceano nos quais podia-se ver o amor
de Giuseppe Garibaldi por Manuela, que sentia o mesmo, que
|
|
 |
| |
|
alimentava esperanças fundamentadas
pelo marinheiro. Guiados de perto por Jayme, a voz suave pedindo
a impostação certa, Thiago e Camila eram o retrato
de um amor que qualquer um gostaria de sentir. Puro e arrebatador.
Difícil era resistir à emoção,
alimentada pelos acordes da trilha sonora épica de
Marcus
Viana, que se espalhava pelo jardim.
- Com o Jayme é sempre assim, essa união, esse
envolvimento de todos. E isso poderá ser sentido na
televisão - contava Thiago, os olhos brilhando de amores
pelo seu Garibaldi, figura que ele vinha estudando há
quatro anos, sem sequer imaginar que um dia estaria em sua
pele.
A luz suave e intimista do set criava cenários únicos,
imagens de sonho. As mulheres se revezando nas lidas da casa
e nas
|
|
 |
| |
|
confissões de paixão, muito
alvas e serenas, mais pareciam sílfides a se esconderem
das mães e das tias para vislumbrar o amor na boca
do rio. Na sombra dessas mulheres, sempre estava Jayme, que
tudo fotografa, que tudo vê, nada lhe escapa ao olhar.
No pátio da casa, Daniela Escobar carrega sua Perpétua
numa aura de meiguice por entre tinas e cestos de frutas.
Aproxima-se da janela do quarto no qual Rosário chora
seu amor por Estevão. 0 encontro das duas não
é uma cena. É uma visão. A meia luz que
incide sobre as primas, olhos profundos, os longos cabelos
derramando-se sobre os ombros esguios, cria uma pintura renascentista.
E Jayme vai fotografando, dirigindo, registrando o que ele
sabe ser sua obra maior. Ao fundo, brincando debaixo de uma
mesa de madeira rústica, os grandes olhos escuros atentos,
seu filho, André, observa o trabalho do pai e da mãe.
|
|
 |
| |
|
Por último, a "guerra das sete
mulheres" convulsionou os campos de Uruguaiana, fronteira
com a Argentina. Sussurros de amor e noites de aflição
feminina cederam espaço para a tarefa hercúlea
de desenhar no pampa as batalhas do século 19. Centenas
de homens, peões da lida do cavalo juntaram-se ao elenco
no entrevero do cruzar de lanças e espadas.
Em Uruguaiana, até os céus se abriram para o
diretor. Num momento que jamais se apagará da memória
de quem o testemunhou, uma tarde de chuva inclemente rasgou-se
num horizonte rubro de pôr-do-sol. Prontamente, Jayme
improvisou o que entrara para a história como uma das
cenas mais belas da televisão brasileira. 0 general
Bento Gonçalves, condoído e tão humano
como qualquer um que esteja prestes a perder um amigo, carrega
nos braços o cunhado ferido de morte.
|
|
 |
| |
|
0 que se vê é apenas sua sombra
emoldurada pela bola de fogo do pôr-do-sol. São
breves segundos ofertados pela natureza - e capturados pelas
câmeras - que levam todos à emoção.
A equipe aplaude. Jayme não cabe em si de excitação.
Werner chora.
0 domingo 17 de novembro terminou em fascínio.
No dia anterior, um sábado de sol causticante, um telefonema
vinha para reforçar o amor que unia aquela família.
Reunidas na casa de Nívea Maria, no Rio de Janeiro,
as sete mulheres ligaram para Jayme só para dizer que
estavam juntas e pensando neles, "os homens da casa",
que batalhavam no pampa, na distante fronteira castelhana.
A família não via a hora de estar reunida novamente.
|
|
 |
| |
|
0 que a Casa das Sete Mulheres tem de relevancia
histórica, tem de magia. Recriar episódios da
história e levar a memória de um país
para a televisão é um desafio.
Fazê-lo com poesia é um dom.
|
|
|
|
Conheça as músicas
da minissérie
|
|
 |
|
 |