Sereias navegam com vantagem sobre a Globo


O encontro do escritor Ulysses (José de Abreu) com a sereia Telxíope (Ingra) no segundo capítulo de O Canto das Sereias...
 
superou a audiência da TV Globo, que investiu nas pernas da modelo Sílvia Pfeifer em Boca do Lixo.

A Globo abriu fogo antes. Às 22h29 mandou para o ringue da luta da audiência a minissérie Boca do Lixo. Poucos minutos depois, às 22h40, a Manchete apostava em O Canto das Sereias. Na terça-feira à noite, primeiro round, a Manchete ganhou. Foram 22,6 pontos conseguidos pelos deuses do Olimpo contra 14,7 da deusa do desejo, segundo a medição instantânea do Ibope (Data-Ibope). Desde o fenômeno Pantanal, não houve na televisão uma disputa tão apertada - é a primeira vez que as duas emissoras disputam o horário das 22h30 com o mesmo tipo de programa, minisséries. Na primeira batalha - são três por semana, terça, quarta e quinta, dias em que as minisséries das duas emissoras se encontram - o telespectador preferiu os cenários atraentes de Fernando de Noronha. Paulo Cesar Coutinho, o autor do programa da Manchete, já está envolvido em mais dois projetos turístico-ecológicos da emissora. Um deles, a lenda do minotauro, volta a experimentar malabarismos com a mitologia grega. O outro, Enigma, pretende ser uma peregrinação espiritualista no Exterior. A Globo, por sua vez, prepara a entrada de Riacho Doce, minissérie adaptada por Aguinaldo Silva e Ana Maria Morethzon do romance de José Lins do Rego. Boca do Lixo, escrita por Sílvio de Abreu, é superior ao Canto das Sereias, mas ainda assim revela fissuras. Roberto Talma, diretor da minissérie da Globo, não havia encerrado as gravações até ontem. Na disputa, ganha de cara o telespectador, que, até o final da próxima semana, pode escolher entre temas, linguagens e visual totalmente diversos.

Projetos - Manchete amplia a sua fauna
- Evaldo Mocarzel

Coutinho: "Paixão que ilumina e não mata"

Rio - O Canto das Sereias, misturando A'Odisséia, de Homero, e Fedra, de Eurípedes, com uma versão mais otimista para a vampiresca lenda das sereias, o dramaturgo Paulo César Coutinho, 43, está agora envolvido em mais dois projetos insólitos: a transposição para a Ilha de Marajó da lenda do minotauro, agora transformado num ser com cabeça de búfalo e corpo de homem, e a minissérie O Enigma, uma peregrinação espiritualista de quatro personagens através dos tempos, que será rodado no Marrocos, Grácia, Egito e Israel.
"É a minha versão para o mito do amor eterno. Trata-se de um projeto fincado sobre a tradição esotérica da literatura espiritualista. São quatro atores, lembrando encarnações passadas e interpretando ao todo 16 personagens. São quatro espíritos, imantados de paixão, com a consciência de suas vidas anteriores, tentando enxugar os erros do passado", explicou Coutinho. Ele recriou estruturas arquetípicas de clichês românticos para dar vida nova a chavões como "amor à primeira vista". "Os atos passados vão influenciar os acertos no presente. Através de flashbacks, paixões incompletas vão retornar ciclicamente, construindo um amor que pode dar certo." Coutinho ainda não sabe quem vai participar do elenco, mas garatiu que a sereia Ingra Liberato será bastante cotada para um dos papéis.
Ele contou que há um congestionamento de anunciantes no Departamento de Marketing da Manchete, ávidos pela estética atemporal das novas produções da emissora. Assegurados os custos, a realização pode ser relâmpago. "Quando exibimos o copião das Sereias no último dia 12, no restaurante The Place, em São Paulo, muita gente ficou interessada em bancar nossas novas produções. O Jayme Monjardim está com o firme propósito de criar o horário das 22h30, com uma seqüência contínua de minisséries. Os patrocinadores chegaram mesmo a solicitar a realização de O Canto das Sereias II", lembrou.
"Elas praticam uma paixão que ilumina e não mata. Eu transformei as sereias em seres benéficos, pois podem se transformar em mulheres normais se decidirem sair do mar." Coutinho respondeu as críticas que recebeu por conta das recriações que fez sobre os mitos gregos. "Eu li recentemente que as estátuas gregas não eram brancas, mas pintadas. O tempo consumiu essas cores. Os mitos estão sempre sendo recontados. A cor do tempo é dada pela visão histórica do momento", filosofou.
Fugindo de uma linguagem "vídeo-clip-histérico-compulsiva", a parceria Jayme Monjardim-Paulo Cesar Coutinho pretende investir cada vez mais no aprofundamento de temáticas mitológicas, capazes de provocar "uma alquimia de cores, sons e imagens", nas palavras do dramaturgo. "A linguagem da Manchete está sendo chamada de cinematográfica porque ainda não tinha sido feita na televisão. Nós imprimimos uma nova respiração na teledramaturgia."

 

Fonte : O Estado de São Paulo - 19 de julho de 1990